Percursos e a Sustentabilidade Territorial

Artigo

Os percursos enquanto estruturas potenciadoras da sustentabilidade do turismo.

Será que o crescimento do fenómeno de visitação e exploração do espaço natural (ou seminatural) representa uma efetiva mais valia para os territórios em que este se encontra?
Será apenas o reflexo de uma sociedade que virou costas ao mundo natural e rural e que hoje se encontra perdida na imensidão da urbe dos grandes centros e que procura reencontrar a ligação à “terra” que a sustenta?
Como poderemos garantir que este crescimento não contribui apenas para a manutenção da relação unidirecional de Produção (meio rural) => Consumo (urbe), e que se traduz num efetivo contributo para a sustentabilidade destes territórios e dos seus patrimónios?

Os percursos pedestres sinalizados e o estímulo à sua utilização enquanto fenómeno de reencontro do mundo rural e natural tiveram a sua origem há mais de 100 anos e construíram-se como uma das principais ferramentas de visitação destes territórios. Se nos seus primórdios se destinava a uma elite aventureira, hoje esta realidade extravasou esse contexto, nas modalidades que as utilizam tendo dado origem a um largo universo de tipologias de percursos, bem como na diversidade das motivações de quem os procura. Assim não podemos mais falar apenas de percursos pedestres, mas sim de uma panóplia de atividades e motivações (conjunto de estrutura de animação) que utilizam os percursos enquanto ferramenta de exploração e descoberta de territórios. O aventureiro experiente, conhecedor da atividade que pratica, deixou de ser o único a procurar este tipo de estruturas, sendo cada vez mais substituído por um conjunto de utilizadores que utilizam os percursos para a sua vivência de contacto com a natureza, mantendo-se, contudo, a mesma matriz de “desafio e aventura” traduzido no que hoje se pode chamar de turismo de natureza.

Feitos 40 anos da instalação dos primeiros percursos oficiais e sinalizados em Portugal e face à crescente importância do turismo de natureza neste sector, tão fulcral para a economia nacional, é de todo relevante começar por perceber que os desafios que hoje se nos apresentam são radicalmente distintos da realidade de uma década atrás.

Assim importa começar por destacar a realidade com que hoje se deparam estas fundamentais estruturas de animação:

 

O amadurecimento do mercado de turismo natureza de onde se destaca:

  • O crescimento da exigência de qualidade, estando este conceito intimamente relacionado com a concretização da expectativa prévia, mas evidentemente também com a qualidade (conceito sempre subjetivo) da experiência proporcionada;
  • Maior competição entre destinos devidamente estruturados e com preocupação crescente de qualidade;
  • Uma menor tolerância às falhas por parte da procura, que se manifesta numa crescente influência da comunicação direta (utilizador para utilizador) e partilha da experiência depois da sua realização;
  • Uma crescente facilidade no acesso à informação e maior autonomia do utilizador;
  • Uma maior diversidade da motivação para a sua utilização (Natureza; Cultura; Desafio; Exploração; Introspeção; Conhecimento; Interação; Saúde; entre outros).

 

A falência iminente da Hiper estruturação:

  • Assistimos a um crescimento exponencial da quantidade de percursos instalados no país nos últimos 5 anos, evidenciada pelo numero de registos e homologações realizadas quer pela federação, que possui a tutela do pedestrianismo, quer pelo mais recente fenómeno dos centros de btt (atualmente centros de Cyclin’Portugal) tutelados também pela federação desportiva da modalidade (UVP-FPC).
  • A incapacidade demonstrada de muitas instituições promotoras em manter o estado de conservação e a qualidade da experiência proporcionada.
    • A falta de qualidade turística (fatores competitivos diferenciadores e a capacidade de alavancar a geração de produto turístico) demonstrada por muitos dos percursos desenvolvidos.
    • Anal quantos dos percursos desenvolvidos, são adequadamente mantidos e ainda proporcionam a experiência para o qual foram desenhados?
    • Quantos tiveram em consideração no seu desenvolvimento os interesses da procura que ambicionavam atrair?
    • Quantos geram hoje os fuxos ambicionados pelos seus promotores?”

 

A exigência da Sustentabilidade,

  • na conservação dos valores naturais, estando o utilizador cada vez mais consciente e exigente no controlo dos impactes gerados pela sua visita.
  • na conservação dos valores histórico culturais, quando vivemos uma realidade onde os trilhos e veredas ancestrais se encontram em “extinção” quer pelo desuso quer pela apropriação a que estiveram sujeitos nas últimas décadas, onde o bem privado se sobrepôs ao interesse público;
  • na geração de produtos compósitos que integrem economia circular e de proximidade, pois a sustentabilidade destes territórios dependeu e dependerá (enquanto não optarmos por uma renaturalização dos territórios abandonados por falta de valor produtivo, na perspetiva clássica de produtividade) das comunidades locais que o utilizam, estimulam e preservam com a sua atividade;
  • na integração das comunidades locais, pois são elas a essência da real sustentabilidade destes territórios e a única oportunidade de conservação quer de valores socioculturais, quer de habitats e paisagens sustentados pelas atividades que aí se desenvolvem;
  • na monitorização permanente dos impactes gerados, quer pelos investimentos realizados, contabilizando os retornos diretos e indiretos, financeiros e não financeiros, para o território onde estão implantadas; quer nos potenciais impactes ambientais provocados.

Face a estas constatações FOI O DESENVOLVIMENTO DE PERCURSOS UMA APOSTA ERRADA para a promoção do desenvolvimento territorial?

Não, mas…

  • O desenvolvimento desenfreado, correspondendo às oportunidades de financiamento, criou a facilidade de se implementar percursos sem ter em consideração as motivações, interesses e exigências da procura. Originando muitos percursos com baixos níveis de atratividade onde o investimento dificilmente se traduz em fluxos turísticos e que possuem muita dificuldade em cativar os agentes económicos (empresas de animação turística, agências e operadores da especialidade etc.) para a sua comercialização.
  • O foco do investimento na implementação e inauguração, provocou um desinvestimento na necessidade de ativação, promoção, manutenção e vigilância destas estruturas;
  • Sendo na sua maioria desenvolvidos por iniciativa municipal, com baixo envolvimento quer das comunidades locais, quer dos agentes económicos, que poderiam beneficiar com o investimento, criou-se muitas vezes um desfasamento entre as diferentes peças do ciclo produtivo.
  • As exigências e imposições dos sistemas de financiamento (quer temporais, quer de forma de desenvolvimento, quer de inclusão em estratégias macro) forçou em muitos casos a que se menosprezasse as fases iniciais e fundamentais de estudo prévio, investigação histórica, cultural e ambiental, favorecendo o investimento material e de implementação.
  • A falta de manutenção e vigilância levou a que seja muitas vezes transmitida informação errada ou desatualizada ao utilizador, exponenciando o potencial para defraudar de expectativas criadas, o que reduz a confiança futura na sua utilização, após a construção de uma reputação negativa.

 

Importa assim refletir nos desafios que este novo paradigma coloca a este sector, procurando instituir metodologias, ferramentas e processos que permitam elevar a oferta, que estas estruturas suportam, a um novo patamar coerente com todas estas preocupações.

Sustentabilidade – é felizmente hoje de senso comum que a sustentabilidade se representa por um banco de três pernas (representando os pilares Económico, Ambiental e Social) onde basta que uma seja “mais curta” para que não se consiga manter em pé. Mas como é que esta realidade se aplica aos percursos e às estruturas de visitação dos patrimónios naturais? Como é que se pode traduzir em metodologias, objetivos, ações e ferramentas que possam auxiliar o gestor ou promotor de um percurso a garantir a sua sustentabilidade futura?

Qualidade – Afinal o que é qualidade de um percurso ou até de uma experiência turística? Sendo a qualidade um conceito por inerência subjetivo, como a poderemos definir por forma a que auxilie na gestão e evolução deste tipo de estruturas? Como poderemos assegurar uma experiência de “Qualidade” e que se tornam num efetivo contributo para a conservação dos valores ancestrais dos territórios onde se inserem?

Reconhecimento – Numa sociedade onde a comunicação entre pares (c2c) se assume como um dos principais fatores de influência da escolha do utilizador, qual o papel que as certificações podem desempenhar na atratividade de um percurso?

Conservação – Na realidade e conforme explanado, qualquer percurso que não considere a valorização e se torne num contributo ativo para a conservação do património diretamente envolvido na experiência turística proporcionada, dificilmente encontrará os seus fatores de atratividade e arrisca-se a comprometer os mesmo património que pretendia potenciar. A conservação tem de ser assim uma obrigação inerente a qualquer estrutura que usufrua de património sensível (seja ele ambiental, material ou imaterial). Quando a procura começa a valorizar o seu contributo ativo para a conservação, como poderemos incentivar que a gestão do percurso a tenha como prioridade?

Segurança – Numa realidade de usufruto cada vez mais autónomo por cada vez mais utilizadores, a que se acrescem os riscos sistémicos dos territórios naturais, florestais ou rurais, como podemos garantir uma efetiva prevenção dos riscos sem com isso artificializar a experiência proporcionada?

 

Concluindo, estamos convictos que apenas uma gestão integrada das estruturas existentes, e a desenvolver, poderá apresentar uma resposta condigna e abrangente, combinando todas as vertentes necessárias (Monitorização Permanente, Manutenção da estrutura física, Gestão ativa de riscos e segurança e Ativação e comercialização); enquanto ao nível estratégico se reforça o conceito da “especialização inteligente e diferenciadora” na redefinição das ofertas a proporcionar.

Acreditamos que qualquer percurso que não consiga rapidamente dar uma resposta proactiva a estas questões estará, pela insustentabilidade demonstrada, condenado ao fracasso e consequentemente a um processo de “morte anunciada”. Enquanto destino e face à popularidade que Portugal possui neste momento, o risco de não controlarmos este processo de “seleção natural” pode vir a ser determinante no futuro deste sector. É imprescindível que rapidamente sejam implementados sistemas que permitam apoiar e capacitar a oferta (percursos e seus promotores) para esta nova realidade.

 

Janeiro de 2020
Manuel Franco, Consultor em Turismo de Natureza da A2Z Consulting*

*A2Z Consulting é uma empresa que se dedica há mais 10 anos à consultoria em turismo de natureza e que se empenha activamente na procura das melhores soluções para garantir o desenvolvimento de turismo sustentável e responsável do território. Fruto da sua experiencia e estudo lançou recentemente a inciativa Responsible Trails. Mais informações em www.responsibletrails.pt.